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A produção mundial de açúcar deverá ficar 3,92 milhões de toneladas abaixo do consumo na safra 2026/27, abrindo espaço para fornecedores brasileiros em um mercado pressionado por riscos climáticos. A estimativa surge quando o Brasil deve colher mais cana, mas destinar uma parcela maior da matéria-prima ao etanol.
O contraste aparece nos números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O segundo levantamento da safra brasileira, divulgado em agosto, prevê 705,2 milhões de toneladas de cana, crescimento de 4,7%. A fabricação de açúcar, porém, está estimada em 42,89 milhões de toneladas, queda de 2,9%, enquanto a produção de etanol de cana deverá crescer 9,7%, para 29,98 bilhões de litros.
A divisão entre açúcar e combustível, chamada pelo setor de mix de produção, ajuda a explicar por que uma colheita maior não significa necessariamente mais açúcar disponível. As usinas ajustam essa distribuição conforme os preços, os contratos, a capacidade industrial e o retorno de cada produto.
No balanço internacional da Datagro, o déficit ocorrerá mesmo com consumo praticamente estável. A pressão vem principalmente da oferta, com reduções esperadas na Índia, na Europa e na América Central. No continente europeu, além das condições climáticas, a diminuição da área de beterraba limita a produção.
Déficit não significa ausência imediata de açúcar para abastecer os mercados. Significa que a produção da temporada será insuficiente para atender ao consumo estimado, exigindo o uso de estoques acumulados. Quanto menor essa reserva, maior a sensibilidade dos preços a uma quebra de safra ou a dificuldades de exportação.
Para o Brasil, o cenário representa uma oportunidade de recuperar receita após um período de retração nos embarques. De janeiro a setembro de 2026, as exportações de açúcares e melaços somaram 20,637 milhões de toneladas, queda de 11,8% sobre o mesmo intervalo do ano passado, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
O faturamento recuou 29,9%, para o equivalente a R$ 35,5 bilhões, considerando o dólar a R$ 5. A redução mais intensa da receita mostra que a cadeia enfrentou tanto menor volume vendido quanto preços médios inferiores.
A perspectiva de oferta mundial mais restrita favorece a sustentação das cotações, mas o resultado dos exportadores dependerá também do câmbio, dos fretes e dos preços já fixados em contratos. Uma valorização internacional não se transforma integralmente em receita adicional quando parte da produção foi comercializada antecipadamente.
Dentro da porteira, a qualidade da cana também participa dessa conta. No Norte e Nordeste, o acompanhamento da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), baseado em informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mostra moagem praticamente estável no início da temporada.
Até 15 de setembro, as usinas das duas regiões haviam processado 9,94 milhões de toneladas, alta de apenas 0,1% sobre o mesmo período da safra anterior. A produção de açúcar avançou 3,3%, para 294 mil toneladas, enquanto a fabricação de etanol recuou 7,5%, para aproximadamente 544 milhões de litros.
O levantamento regional apontou queda de 5,3% no Açúcar Total Recuperável (ATR) por tonelada de cana. Esse indicador mede a quantidade de açúcares que pode ser aproveitada industrialmente e é uma referência importante para a remuneração dos fornecedores. Quando o ATR diminui, é necessário processar mais matéria-prima para obter o mesmo resultado industrial, mantidas as demais condições.
Os períodos precisam ser distinguidos: o balanço mundial citado pela Datagro - consultoria privada especializada em mercados agrícolas - vai de outubro de 2026 a setembro de 2027. Já as safras brasileiras seguem calendários próprios, com diferenças entre as regiões produtoras. Os números da NovaBio até meados de setembro retratam apenas o início da temporada regional, não o desempenho atual de todo o país.
Para o fornecedor de cana, acompanhar apenas a cotação do açúcar é insuficiente. Produtividade por hectare, ATR entregue, custos de corte e transporte e regras do contrato com a usina determinam quanto da oportunidade internacional chegará ao resultado da propriedade.
Fonte: Pensar Agro