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O Brasil iniciou o plantio da safra 2026/27 ainda dependente do mercado internacional para abastecer suas lavouras com fertilizantes. Apesar da retomada da produção nacional de nitrogenados, o país continua importando a maior parte dos insumos utilizados na agricultura. A preocupação aumenta diante das restrições de oferta no exterior e dos custos de produção, especialmente para o milho de segunda safra, que será plantado no início de 2027.
O alerta é do engenheiro agrônomo Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), em artigo publicado nesta terça-feira (03.11) no LinkedIn. Ele analisa a valorização de 46% da amônia no Meio-Oeste dos Estados Unidos desde junho e seus possíveis reflexos sobre o mercado brasileiro. Segundo Rezende, o aumento da matéria-prima não significa necessariamente uma elevação equivalente no custo dos fertilizantes comprados pelos agricultores brasileiros.
"A valorização da amônia americana não se traduz automaticamente em aumento proporcional do preço da ureia no Brasil", afirma o especialista, ao destacar que as condições de oferta e demanda são diferentes nos dois mercados.
A dependência brasileira é expressiva. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), aproximadamente 93% dos fertilizantes consumidos no país têm origem externa. Em 2025, as importações alcançaram 45,5 milhões de toneladas, volume recorde. A necessidade de compras internacionais envolve os três principais nutrientes utilizados na agricultura: nitrogênio, fósforo e potássio.
Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou aproximadamente 28,46 milhões de toneladas de fertilizantes, redução de 15,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Somente em setembro, as compras externas somaram 3,11 milhões de toneladas, queda de 27,9% na comparação anual. As importações de fertilizantes nitrogenados chegaram a 1,34 milhão de toneladas naquele mês, recuo de 32,3%.
A ureia, uma das principais fontes de nitrogênio utilizadas nas lavouras, respondeu por aproximadamente 710 mil toneladas das importações de setembro. O produto é especialmente importante para culturas como milho, trigo e cana-de-açúcar, que necessitam de quantidades significativas desse nutriente para alcançar boa produtividade.
O Brasil também começou a recuperar parte de sua capacidade industrial. As unidades de fertilizantes nitrogenados de Sergipe e da Bahia retomaram as operações entre o fim de 2025 e o início de 2026. Em abril, a fábrica de Araucária, no Paraná, voltou a produzir ureia.
A unidade paranaense possui capacidade instalada para fabricar 720 mil toneladas de ureia e 475 mil toneladas de amônia por ano. Com as três fábricas em funcionamento, a produção brasileira poderá atender aproximadamente 20% da demanda nacional de ureia, conforme estimativas divulgadas para a retomada das operações. O percentual representa uma capacidade potencial de abastecimento, e não o volume efetivamente produzido neste ano.
A amônia é uma matéria-prima fundamental para a fabricação de fertilizantes nitrogenados. A partir dela, a indústria produz ureia e outros compostos utilizados para fornecer nitrogênio às plantas. Esse nutriente participa da formação da clorofila, responsável pela absorção da luz na fotossíntese, e da produção de proteínas necessárias ao crescimento vegetal.
Quando a planta recebe menos nitrogênio do que necessita, perde vigor, apresenta amarelecimento das folhas mais velhas e pode ter seu desenvolvimento comprometido. No milho, a deficiência durante as fases de crescimento pode reduzir a formação e o enchimento dos grãos, prejudicando a produtividade. Por isso, a adubação nitrogenada exige planejamento técnico, considerando a fertilidade do solo e o potencial produtivo de cada lavoura.
A preocupação se concentra agora no milho de segunda safra de 2027, que será plantado principalmente depois da colheita da soja no Centro-Oeste. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta 18,48 milhões de hectares destinados à segunda safra, com produção estimada em 113,2 milhões de toneladas. Consideradas as três safras de milho, a previsão nacional se aproxima de 148 milhões de toneladas.
O desafio para o agricultor não está apenas no preço do fertilizante, mas também na capacidade de comprá-lo sem comprometer a rentabilidade da lavoura. Com juros elevados, restrições de crédito e margens apertadas, uma eventual piora nas condições de compra poderá exigir mais recursos por hectare ou levar à redução do investimento em adubação.
"Mais importante que o preço isolado da ureia é a quantidade de milho necessária para pagar o fertilizante", observa Isan Rezende. Essa relação de troca determina quantas sacas do cereal o produtor precisa vender para adquirir uma tonelada do insumo e ajuda a medir o peso real da adubação sobre os custos de produção.
A situação também interessa à indústria de etanol de milho, que vem ampliando sua capacidade de processamento no Brasil. O crescimento do setor aumenta a demanda pelo cereal, mas depende da continuidade dos investimentos nas lavouras e da manutenção de condições econômicas favoráveis tanto para agricultores quanto para as unidades industriais.
"Não basta ampliar a demanda industrial se o custo de produzir a matéria-prima compromete a rentabilidade de quem planta", ressalta Rezende no artigo.
A retomada da produção brasileira de nitrogenados representa um avanço para o abastecimento, mas ainda está longe de eliminar a dependência externa. Para a safra 2026/27, a combinação de importações, disponibilidade de estoques, câmbio e condições de financiamento continuará determinando o custo dos fertilizantes. O risco mais imediato está na perda de rentabilidade dos produtores que ainda precisam adquirir insumos para o milho de segunda safra, justamente quando a expansão do consumo interno exige ganhos constantes de produtividade.
Fonte: Pensar Agro